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Réquiem Grandes Liberais - Detalhes sobre essa informação
Título: A educação que não se vê
Autor: Henry Hazlitt
Data: 10/12/2004
Link: http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3076
Artigo:
por Diogo Costa

Publicado em Mídia Sem Máscara

Talvez a contribuição mais repercutida do economista francês Frédéric Bastiat, seja seu ensaio "O que se vê e o que não se vê". Ao discorrer sobre a importância da previsão econômica, Bastiat qualifica como maus economistas aqueles que enxergam de forma limitada os efeitos de determinado ato no campo da economia. Entender as conseqüências imediatas de uma lei, por exemplo, não basta para julgar sua eficácia. É necessário procurar todos os seus desdobramentos em longo prazo e para toda a sociedade.

Desde então, as palavras de Bastiat ensinaram grandes economistas a procurar pelos efeitos provenientes de políticas econômicas. E o governo tem sido cada vez mais generoso em fornecer material para estudo: todos os fracassos provocados pela própria interferência estatal tentam ser remediados com maior intervenção do próprio Estado. Quanto mais os políticos se concentram para resolver problemas específicos, maior se torna o desastre em larga escala. Se os alertas de Bastiat fossem ouvidos, a história dos Estados-nações no século XX não seria vista como uma crescente bola-de-neve de concentração de poder.

Entre os que entenderam o alerta e resolveram divulgá-lo, encontra-se Henry Hazlitt e seu famoso livro "Economia em uma Lição". Hazlitt não apenas admite a lição de Bastiat, como expõe sua aplicação prática através de vários exercícios que demonstram a superioridade econômica do livre mercado sobre o intervencionismo estatal.

Apesar dos argumentos desses dois grandes economistas terem sido insistentemente confirmados nos séculos anteriores, e ainda neste, seu convencimento permanece minguado. A quase totalidade dos cidadãos da Terra ainda prefere deixar-se persuadir por políticas que privilegiem seu grupo em detrimento do resto da sociedade. Seja por puro egoísmo, ou porque o imediatismo econômico, com suas promessas simples e milagrosas, impressiona muito mais que um convite ao exercício intelectual. Bons economistas que eram, tanto Hazlitt quanto Bastiat conseguiram criticar o que não viram. Os princípios em que se basearam serviram para denunciar incontáveis absurdos que viriam guiar o pensamento econômico futuro. Abra qualquer jornal ou revista dessa semana e serão encontrados diversos resultados econômicos indesejáveis já previstos pelo método de Bastiat.

Mas, apesar das várias aplicações de "o que não se vê", uma não recebeu a devida atenção desses dois autores: a educação. O que deixa de acontecer porque o Estado promove atendimento compulsório, mantém escolas através de tributos e impõe o conteúdo curricular?

Leonard Read investiga essas questões em "Anything that's Peaceful". Mas sua resposta não satisfaz os mais curiosos. Ele admite que o resultado da educação livre é imprevisível. Imprevisível porque não conhecemos o que a adição do aprendizado à criatividade pode gerar. O homem que precisa dispensar uma certa quantidade de dinheiro para consertar sua janela quebrada pode deixar de comprar um suéter. Mas esse mesmo homem não saberia o que faria se, em vez de ser coercitivamente ensinado, fosse motivado pelo seu próprio interesse em conhecer. Apenas podemos concluir que, assim como o mercado estimula um fluxo maior de troca entre os indivíduos, a educação, deixada livre, também permitiria uma movimentação cognitiva sem igual. Mas os produtos da desobstrução da energia criativa humana nos são tão ocultos quanto seriam as invenções atuais para um francês do século XIX.

Toda interferência artificial do governo altera a harmonia natural da sociedade. Com a educação não pode ser diferente. Se não houvesse uma demanda, criada pelo Estado, por funcionários públicos, por exemplo, menor seria a procura pelos certificados de cursos superiores como uma esperança de ascensão social e estabilidade financeira. O crescimento artificial de faculdades que se importam mais com a formação do que com a educação, apenas existe em decorrência de um crescimento artificial de empregos que se importam mais com a formação do que com a educação.

Ao analisar o sistema educacional contemporâneo, Read procura descobrir de que forma a harmonia natural foi desequilibrada por causa da intervenção do Estado. Sua sugestão, se não é correta ao supor uma relação causal, mostra-se precisa ainda que como simples observação da modernidade. "O mundo conquistou genialidade sem sabedoria, poder sem consciência. Vivemos num mundo de gigantes nucleares e infantes éticos". Com essa citação de General Omar Bradley, Read consegue a impressão desejada. A educação que qualquer aluno recebe na escola permite-o calcular logaritmos, conhecer os elementos transurânicos, classificar os cefalocordados. Uma elevação do conhecimento científico incomparável com qualquer outro período da história da humanidade. Mas sem um proporcional aumento do conhecimento ético. A sinergia do conhecimento de um grupo de homens permite-os construir armamentos devastadores, mas qual deles consegue discernir a imoralidade na utilização da violência?

Nossas escolas, quando eficientes, conseguem promover o conhecimento técnico, mas não se importam em desenvolver no indivíduo a sabedoria moral. Não será esse, talvez, o mais perigoso de todos os desequilíbrios provocados pelo Estado?

Maravilhamo-nos com estações espaciais, com aceleradores de partículas, com o Google, mas precisamos de penalidades para suprir uma enorme deficiência em obedecer a ordenamentos morais íntimos. Mandamos o homem à lua, mas mentimos para nossa esposa. As virtudes são perseguidas enquanto trazem benefícios imediatos, apenas. Sabemos mais sobre "como assassinar do que sobre como viver", disse Bradley.

É essa a educação que queremos para os nossos filhos? Prefere um cristão que seu filho aprenda mais sobre a tabela periódica do que sobre a salvação de sua própria alma? Se reconhecemos o perigo para nossa própria civilização, imaginem os efeitos da expansão deste desalinho entre conhecimento técnico e sabedoria moral para os povos acostumados às piores atrocidades.

Ao legar-nos "O que se vê e o que não se vê", Bastiat esperava evitar que sua lição só fosse aprendida através do fracasso. Não é preciso ter a pele derretida para descobrir que o fogo queima. Os homens deveriam aprender pela previdência, não pelos próprios erros. Atualmente, não vemos uma coisa nem outra.

O autor é articulista do blog Oito Colunas.

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