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Réquiem Grandes Liberais - Detalhes sobre essa informação
Título: Vai o profeta, fica a profecia
Autor: Roberto de Oliveira Campos
Data: 11/10/2001
Link: Editorial do jornal Jornal da Tarde
Artigo:
URL: http://www.jt.com.br

Com a morte de Roberto Campos desaparece um dos últimos produtos de um tempo onde ainda havia no Brasil escolas capazes de prover uma Educação com E maiúsculo. Com a base aqui adquirida e os dotes que Deus lhe deu, completou sua formação nos EUA e, logo, iniciou uma carreira pública que o colocou em postos privilegiados de observação dos momentos decisivos do século 20. Em 1942 servia na embaixada brasileira em Washington; em 44 integrou a delegação brasileira à conferência de Bretton Woods que criou o FMI, o Banco Mundial e a ordem econômica mundial como a conhecemos hoje.

Entendendo o mundo de seu tempo como poucos, tornou-se capaz de enxergar como nenhum outro brasileiro nossas potencialidades e deficiências. O relato de sua luta incansável para tentar passar ao País sua profética visão de mundo é uma história de frustrações. No seu discurso de despedida da vida pública, em 31 de janeiro de 1999, Roberto Campos confessou sua melancolia "com o fracasso de toda uma geração - a minha geração - em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado". E definiu-se como "um pregador, quase um profeta sem carisma, que conseguia detectar na bruma do futuro a silhueta das coisas, sem ter capacidade para mobilizar outros em função dessas visões". Embora tendo tido a oportunidade de montar o modelo de desenvolvimento que, no século passado inteiro, proporcionou o maior salto da história do Brasil, Campos assistiu impotente aos retrocessos que se seguiram, sem conseguir evitar que este país, onde "a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor", se perdesse pelos muitos desvios que nos levaram para a direção contrária do progresso. Na solidão de sua lucidez, que o fez profetizar com várias décadas de antecedência o colapso do socialismo, a vitória das economias de mercado, a redução do Estado intervencionista pela privatização, a inevitável crise da Previdência e a necessidade da abertura internacional dos mercados, sofreu duplamente com nossos fracassos, que anteviu, mas não pôde evitar.

Seus diagnósticos continuam ressoando, perfeitos: "Sempre achei que um dos mais graves problemas dos subdesenvolvidos é sua incompetência na descoberta dos verdadeiros inimigos. Assim, por exemplo, os responsáveis por nossa pobreza não são o liberalismo e o capitalismo, em que somos noviços e destreinados, e sim a inflação, a falta de educação básica e um assistencialismo governamental incompetente, que faz com que os assistentes passem melhor que os assistidos."

Nada, até hoje, resume melhor a nossa realidade. Ainda assim, no início deste terceiro milênio, com "os assistentes passando sempre melhor que os assistidos", o discurso sobre os falsos inimigos continua pautando o jogo eleitoral.

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