Publicado no website Midia@Mais
Os cidadãos paulistanos devem estar atentos a mais uma impostura político-científica que poderá ser aprovada na calada da noite: uma lei que obriga a pintar de branco os telhados, para, supostamente, ajudar a salvar o planeta do “aquecimento global”.
A medida, além de inócua para diminuir as temperaturas, demonstra a leviandade com que as questões ambientais têm sido apresentadas à sociedade em geral, em um contexto em que poucos questionam as reais motivações de tais medidas.
Comecemos pela ONG internacional que está fazendo lobby na Câmara Municipal para que tal projeto de lei seja aprovado, a Green Building Council Brasil (GBC Brasil). Fundada nos EUA em 1993, e no Brasil desde 2007, segundo o sítio www.gbcbrasil.org.br, seu objetivo é “auxiliar no desenvolvimento da indústria da construção sustentável no País, utilizando as forças de mercado para conduzir a adoção de práticas de Green Building (sic) em um processo integrado de concepção, construção e operação de edificações e espaços construídos”. Entre os seus membros e patrocinadores, estão grandes empresas nacionais e internacionais de toda a gama de atividades ligadas à construção civil.
Mas, primeiro, vejamos a questão sob o aspecto meramente científico. Primeiro, enquanto em toda parte se contesta o suposto consenso em torno de um “aquecimento global antrópico”, como vemos por diversos posicionamentos de academias científicas, setores não engajados da mídia e certos governos, quebrando a hegemonia “científica” pregada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o Brasil e, principalmente, São Paulo, vão na contramão, assumindo metas de redução de emissões de carbono, adotando medidas para cumpri-las e castigando a população com leis absurdas que são completamente inócuas para o planeta, mas bastante prejudiciais àquela: vistoria de automóveis com padrões europeus de medição de gases-estufa, proibição de sacolas plásticas em mercados, pintura de telhados de branco etc. Nada disto tem qualquer fundamento científico, simplesmente, pelo problema de escala. As cidades do mundo representam cerca de 0,05% da superfície do planeta e as habitações, bem menos que isto, com 0,005% [veja Anexo M@M]. Apenas por este fato, a pintura de telhados de branco não interfere em nada em escala planetária.
Analisando em escala local, poder-se-ia supor que haveria uma redução de temperaturas nas grandes cidades, pois, como se sabe, a cor branca reflete mais radiação solar que as cores mais escuras. O telhado branco, de fato, apenas arrefeceria internamente as pequenas edificações, porém não resolveria o problema das trocas térmicas, sobretudo ao longo do dia (os ganhos internos de calor continuariam). Trata-se de uma abordagem microclimática (interior das edificações) e não macroclimática (ou topo) no caso de cidades. Porém, os proponentes da medida esquecem de dizer que os telhados são apenas a ínfima parte das construções. As superfícies combinadas de todas as paredes, muros, calçadas etc. de uma cidade altamente verticalizada superam em muito as áreas dos seus telhados. Some-se a isto o fato de o Sol “caminhar” durante as horas do dia e sazonalmente, pelas estações do ano, multiplicando os ângulos e posições de incidência de energia sobre as superfícies. Desta maneira, todas elas permanecem durante todo o período de insolação transformando as ondas curtas (luz do Sol) em ondas longas (calor). Portanto, sob a perspectiva micro, ou seja, de um observador dentro de um “cânion urbano” (que é a unidade de análise elementar para a climatologia urbana, assim como a bacia hidrográfica para a geomorfologia), verifica-se que a radiação solar que passa por entre as coberturas sofre múltiplas reflexões, entre o piso (ruas, calçadas) e as paredes, carros, pessoas, maritacas etc. Pouco dela volta para fora do “cânion”, ou seja, ele age como um alçapão para a radiação solar.
Portanto, podem pintar telhados e paredes com as cores que se quiser que tampouco não fará a menor diferença na escala local. Desta maneira, se se quiser mesmo reduzir o albedo (a proporção entre a radiação refletida e a recebida) das cidades, comece-se por demolir os arranha-céus, pois o que ocorre não é a geração de mais calor, como muitos pensam, mas apenas um atraso na dissipação daquele que já foi produzido pela luz do Sol - afinal, não se pode criar energia, apenas transformá-la.
Para completar, na realidade, vistas dos satélites, as cidades apresentam um albedo significativamente baixo, semelhante ao de uma floresta, em torno de 20%, se não menos. Em um trabalho publicado em 2006, [Antonio Jaschke Machado, Dr. em Geografia pela USP, e Tarik Rezende de Azevedo, Prof. Dr. Climatologia, DG – FFLCH - USP] Machado e Azevedo calcularam o albedo da cidade de São Paulo em aproximadamente 22%no maior espaço amostral[*], a partir de imagens do satélite Landsat. Segundo eles, a causa deste albedo semelhante ao florestal não se deve às características radiativas dos materiais de construção, mas à forma da área urbana - ou seja, um problema de geometria, e não das cores das construções.
Agora, apenas por um momento, imaginemos que São Paulo se transforme em uma cidade idêntica àquelas de ilhas gregas como Santorini, Mykonos, Delos, Naxos, Iráklia, Amorgós e Anáfi, onde todas as casas, ruas etc. são pintadas de branco. Então, apenas supondo que elas conseguissem permanecer brancas por muito tempo em uma cidade de grande poluição do ar como a capital paulista, as edificações armazenariam menos energia. Como a camada mais baixa da atmosfera (troposfera) se aquece de baixo para cima, pelos fluxos de calor turbulentos, então, a atmosfera urbana se aqueceria menos. Se, em uma metrópole densamente verticalizada, além das calçadas, as ruas fossem totalmente pavimentadas com bloquetes de concreto branco “ecológicos” (que fariam a alegria e a prosperidade dos mecânicos de suspensões de veículos), tudo estaria branco ou próximo do ideal grego.
Assim, a nossa cidade toda branca refletiria tanta radiação solar, que quase não conseguiria armazenar calor. A conclusão desta hipótese absurda é que reduziríamos drasticamente os fluxos turbulentos de calor para a atmosfera, o que, por sua vez, neutralizaria a camada de mistura, favorecendo uma intensa estratificação do ar sobre a cidade. Como é justamente essa camada de mistura que dispersa os poluentes atmosféricos, teríamos uma enorme acumulação de poluição nas primeiras centenas de metros da atmosfera sobre a nossa “cidade ecológica” – ou seja, uma situação permanente como a das conhecidas inversões térmicas dos invernos.
Também devemos nos ater aos fatos da limpeza destes telhados. Como ficaria a manutenção deste inferno branco com a deposição de fuligem, particulados escuros, fumaça entre outros? Teríamos que realizar um programa de limpeza constante. Quanta água seria gasta neste processo? Para uma ONG que prega a “sustentabilidade”, tal empreitada está longe do seu discurso. Ao mesmo tempo, quanto vai custar essa limpeza periódica (lembrando que a maior parte da população sequer executa a limpeza das caixas d’água). Também precisamos imaginar a parte operacional deste processo que vai envolver pessoas as quais executarão os serviços. Será que as estruturas dos telhados vão suportar manutenção periódica? Quem vai cobrir os acidentes de trabalho e as quebras constantes de telhas e suas substituições? Para completar, somente quem já viveu a experiência polar sabe o quão doloroso é a reflexão do branco. Com uma cidade refletindo a energia solar para todos os lados, a cegueira temporária e a permanente aumentariam em muito, tornando-se um problema de saúde municipal crônico. Por tudo que vimos, teremos muito mais danos pessoais e materiais causados pela implementação deste absurdo do que benefícios.
Então, chega a hora de os cidadãos se perguntarem sobre quais seriam os desdobramentos mais sérios dessa ideia surreal e insana de se pintarem os telhados de branco. Possivelmente, algo similar à vistoria veicular “ambiental”- quem não passa, tem o seu bem aviltado pelo Estado, ou seja, perde o seu veículo, pois não pode licenciá-lo, vendê-lo, usá-lo etc. No caso dos “telhados ecológicos”, o monitoramento seria feito por satélites, como a própria Prefeitura já faz para detectar construções ilegais na emissão dos talões de IPTU, ainda mais agora com google streets e google maps que facilitarão o “controle”. Se a lei for aprovada, quem não pintar seus telhados de branco levará multas que serão incluídas nos talões de IPTU. Como, com os elevados índices de poluição aérea da cidade, os telhados não ficariam brancos por muito tempo, possivelmente, seria incluído na lei um dispositivo que obrigaria à realização de pinturas periódicas, sob pena de novas multas (ótimo negócio para fomentar a venda de tintas). E, como grande parte da população mais pobre teria dificuldades de cumprir todas essas exigências, teríamos outro mecanismo de aviltamento dos bens dos cidadãos pelo Estado.
Porém, o pior ficou para o final. O presidente da GBC Brasil, Nelson Kawakame, que trama esse conluio com o Legislativo e Executivo Municipal, diz textualmente que “o simples fato de se falar mais sobre esse assunto e criar um projeto de lei a respeito do tema já ajuda a contaminar as pessoas para a causa, que é o principal objetivo da GBC Brasil”. Notem bem, contaminar as pessoas para a causa é o principal objetivo da sua ONG! Todavia, talvez, o fato de a GBC ter entre os seus membros fundadores várias empresas ligadas à produção e ao comércio de materiais de construção ajude a explicar melhor a intenção de tal absurdo projeto de lei.
Definitivamente, a megalópole paulistana tem prioridades incomparavelmente mais sérias e urgentes. Portanto, a Prefeitura e a Câmara Municipal deveriam se concentrar nelas - limpeza pública, iluminação, transportes eficientes e uma pletora de etc. – em vez de tentar nos impor uma proposta tão descabida e absurda. Não obstante, para assegurar a devida “sensatez” dos nossos homens públicos, a população paulistana precisa ficar atenta e se mobilizar para impedir esse descalabro.
Sobre os autores:
Antonio Jaschke Machado, Doutor em Geografia Física pela Universidade de São Paulo (USP);
Francisco Arthur da Silva Vecchia, Professor Livre Docente da Escola de Engenharia de São Carlos – USP;
Geraldo Luís Lino, Geólogo, diretor do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa);
Ricardo Augusto Felício, Doutor em Climatologia e Professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).
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[*] Nota do Dr. Antonio Jaschke Machado: O valor modal obtido para o albedo na área da RMSP, incluindo a mancha urbana e seu entorno com áreas arborizadas até o limite administrativo da área, foi de 0,22. Considerando-se os valores mais freqüentes em torno do valor médio (0,25), para um intervalo de amostragem de 90%, observa-se que os valores típicos de albedo para a RMSP estão no intervalo entre 0,17 e 0,31. De uma maneira geral, a mancha urbana apresenta valores mais elevados de albedo do que as áreas arborizadas ou espelhos d’água, oscilando entre 0,25 e 0,30. Todavia, o núcleo urbano, densamente edificado, porém verticalizado, apresenta valores de albedo consideravelmente mais reduzidos, semelhantes às áreas arborizadas, variando entre 0,15 e 0,20. Ou seja, o valor característico é algo entre 0,22 e 0,25. Porém, para o núcleo densamente verticalizado ele chega a meros 0,15. Isso mostra o efeito da forma urbana sobre a magnitude do albedo. Além de o albedo ser função da cor e da forma da superfície (rugosidade), ele também é função do tempo. Ou seja, o albedo não é uma constante. O que encontramos nos livros textos são apenas tabulações do seu valor médio para os diferentes materiais. Na verdade o albedo varia diariamente e sazonalmente. A sua variação diária tem a ver com o ângulo de incidência dos raios > solares, ou seja, da elevação do disco solar (se preferirem, o seu ângulo zenital), de tal modo, que temos um gráfico do tipo "Batman", as duas orelhinhas no início da manhã e no fim da tarde, com valores mínimos durante o dia. Portanto, vejam que curioso, é justamente nos horários de maior aquecimento, quando precisaríamos que mais radiação fosse refletida, que o albedo torna-se menor. Além disso, ocorre a variação sazonal, que na realidade está associada ao fato de o conteúdo de água armazenada em uma superfície variar durante o ano. Logo, o albedo é função da cor, da rugosidade, do tempo e também da umidade. Basta lembrar da areia da praia. Por que a areia mais seca é clarinha e a molhada é mais escura? Agora, como falar em albedo sem considerar a umidade, em uma cidade dos trópicos úmidos como São Paulo?
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