Publicado no jornal Correio do Povo
Ninguém saberia dizer hoje quanto custará a Copa do Mundo no Brasil em 2014. Por uma razão muito simples: não há qualquer interesse em dar números exatos sobre o evento esportivo da Fifa. Os organizadores se encarregaram de protelar as obras esportivas - os estádios - e as de infraestrutura até o limite onde a ética e a lisura de projetos elaborados com dinheiro público ficam obscuras, livres das concorrências e da fiscalização dos contribuintes. As notícias sobre o total das despesas ora falam em R$ 17 bilhões, ora em R$ 27 bilhões, mas as mesmas podem passar dos R$ 30 bilhões. O que as pessoas de bom senso observam é que haverá uma farra com dinheiro que poderia ser mais bem aplicado em outras necessidades básicas que melhorariam a vida de todos os brasileiros. Um bom exemplo de como se pode medir o desperdício destinado à Copa de 2014 está no Ceará, mas vale rigorosamente para todo o Brasil.
O governador Cid Gomes está construindo o Hospital Regional de Sobral (a segunda cidade do estado), que irá atender a população local e de outros 55 municípios da região. O complexo hospitalar terá a capacidade de realizar 60 cirurgias por dia e 1,3 mil hospitalizações por mês. Serão 382 leitos, com 199 destinados à enfermaria, 113 de apoio (para pacientes com 24 horas de internação) e, ainda, 70 leitos de UTI, sendo 40 de cuidados máximos e 30 de cuidados intermediários. O novo hospital vai garantir atendimento para 1,5 milhão de habitantes com acesso à assistência especializada na própria região. O custo total será de R$ 173,5 milhões - R$ 133,5 milhões para a obra e outros R$ 40 milhões para equipamentos. Corta para o futebol. O Estádio Governador Plácido Castelo, em Fortaleza, em reforma completa para a Copa, terá shopping, cinemas, restaurantes e hotel a um custo de R$ 300 milhões. O cálculo é do ano passado. No último dia 15 de setembro, as obras do Castelão já estavam reavaliadas em R$ 486 milhões. Ou dois complexos hospitalares e meio iguais ao de Sobral. O que deixaria os cearenses com atendimento médico-hospitalar semelhante ao dos canadenses.
Quem entende?
A Copa do Mundo de 2014 não é unanimidade no "País do Futebol". Com gastos absurdos e misteriosos, recursos que poderiam estar aplicados em saúde, educação e segurança pública são destinados às praças esportivas de discutível utilidade após o evento. Mas acredite, prezado leitor, quem mais vibra com a Copa é aquele mesmo cidadão que pode morrer na fila do SUS em busca de um leito ou de uma cirurgia.
Capricho do Blatter
A imprensa sul-africana, não tão eufórica como a similar esportiva brasileira, seguidamente lembra que os elefantes brancos construídos para a Copa de 2010 foram um capricho da Fifa e, especialmente, "de seu presidente, Joseph Blatter". A Cidade do Cabo, dizem os jornalistas, já contava com estádios perfeitamente aptos para o torneio. A África do Sul tem as mesmas necessidades do Brasil de novos hospitais. Para ficarmos apenas no item saúde pública.
Dilema africano
O estádio Green Point, construído na Cidade do Cabo para a Copa da África do Sul, recebeu oito jogos durante o evento e, de lá para cá, outros 12 movimentaram a moderníssima arena esportiva. A empresa francesa que administrava o estádio desistiu do negócio. Em janeiro deste ano, a prefeitura local assumiu a gestão do Green Point e uma das sugestões para evitar o prejuízo de sua manutenção foi a de implodi-lo. A construção custou R$ 1 bilhão.
Bebidas e meia-entrada
O benefício da meia-entrada para estudantes e idosos é consagrado no Brasil, agrade ou não à Fifa. Mas, se depender somente da entidade, o Brasil revogará a meia-entrada e ainda permitirá a venda de bebidas alcoólicas nos estádios escolhidos para os jogos da Copa 2014. O deputado estadual Miki Breier (PSB), autor da lei que proíbe esse tipo de comércio, tem sido muito claro a respeito do assunto: "Não aceitamos que uma federação internacional, por conta de um patrocínio, venha nos dizer quais leis podem ou não funcionar em nosso Estado". A conferir em 2014.
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